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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Eros e Psique



Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
por que a princesa vem.

A princesa adormecida,
Se espera dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a frote esquecida,
Verde uma grinalda de hera.

Longe o infante, esforçado,
Sem saber que intuíto tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso,ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, ainda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.


Fernando Pessoa

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