sábado, 18 de outubro de 2008

Uma galinha de domingo

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas de manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surprêsa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito
e em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou
o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve estava no terraço do vizinho ,
de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de um chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos
alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula , escolhia com urgência outro
rumo .
A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha
tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito da conquista havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes,
na fuga, pairava ofegante nm beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros
com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre.
Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas víceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. È verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que
morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Afinal! ,numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a.
Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa
através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência . Ainda tonta,
sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade , parecia uma velha mãe habituada . Sentou-se sobre o ovo e asim ficou,
respirando, abotoando e dasabotoando os olhos.
Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e baixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu
tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento,despregou-se do chão e saiu aos gritos:
- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo á cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando
seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada,
era uma galinha.
O que não sugeria nemhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já
há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
- Se você mandar matar essa galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
- Eu também! - jurou a menina com ardor.
A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue , a galinha passou a morar com a família. A menina , de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei; a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa.
Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos,usando suas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido,enchia-se de uma pequena coragem , resquícios da grande fuga
- e circulava pelo ladrilho, o corpo avançado atrás da cabeça,pausado como num
campo, embora a pequena cabeça a traísse : mexendo-se rápida e vibrátil ,como o
velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra , sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar á beira do telhado ,prestes a anunciar. Nesses momentos
enchia o pulmão com a ar impuro da cozinha e, se fosse dado ás fêmeas cantar,
ela não cantaria mas ficaria muito mais contente.
Embora nem, nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse.
Na fuga, no descanso, quando deu á luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se os anos.


Clarisse Lispector
(imagem by: lidia machado)

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