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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Maradona e os herois

(estátua de Diego A. Maradona)

Como no dia da partida inaugural, frente á Belgica, ele teve um desempenho opaco , muitos se perguntavam de onde, desde quando e por que surgiu o mito
Maradona.
Depois da partida da Argentina contra a Hungria, que o pequeno astro iluminou do princípio ao fim com o fogo de artifício de sua sabedoria , ninguém mais tem dúvidas : Maradona é o Pelé dos anos 80.
Um grande jogador? Mais que isso : umas dessas divindades vivas que os homens criam para se adorarem nelas.
Por um período que será fatalmente breve - este é o mais absoluto e o mais fugaz dos reinados - cabe agora ao argentino ser, para milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, o que foram , em seus também rápidos turnoss imperiais, Pelé, Cruyff, Di Stefano, Puskas, e alguns outros: a personificação do futebol. O herói em quem este esporte se faz símbolo e emblema. Os bilhões de pesetas que, segundo se diz, o Barcelona pagou para incorporá-lo em suas filas são uma prova irrefutável de que Maradona já ascendeu a esse trono. E a julgar por sua atuação frente aos húngaros e a repercussão desta junto ao público , este Mundial demostrará que o Barsa fez um investimento rentável. Dez milhões de dólares é muito dinheiro por um simples mortal que dá chutes em uma bola, mas não é nada se o que na verdade
se compra é um mito.
Maradona é um mito porque joga maravilhosamente bem, mas também porque seu nome e seu rosto se gravam instantaneamente na memória e porque ,por
uma dessas indecifráveis razões que nada tem a ver com a razão , ele nos parece inteligente á primeira vista e cai em nossa simpatia. Essa impressão terá algo a ver com sua estatura? Na partida contra a Hungria vendo-o atuar, entre aqueles altos e fornidos zagueiros magiares, que revelam patética ineficácia para
controlá -lo , ter-se-ia a alentadora impressão de que existe uma justiça imanente, de que também no futebol é certo que mais vale a astúcia do que a força, de que o que conta, na hora de chutar, não são absolutamente as pernas, mas a fantasia a as idéias.
No entanto, apesar de sua pequena estatura , Maradona não dá a sensação de ser frágil, mas a de alguém forte e sólido, talvez poe aquelas, pernas robustas, de músculos salientes, que resistem aos encontrões com os defensores adversários,não importa quão altos ou fortes sejam. Aquela cara de garoto sonhador , ingênuo, cheio de boas intenções lhe é incrivelmente útil para emgambelar os desmoralizados bípedes encarregados de cuidá-lo porque a verdade é que, na hora de entrar duro, também sabe fazê-lo
E como um ímpeto que se diria incompatível com seu físico.
Não é fácil definir o jogo de Maradona. Ele é de tal complexidade que, em seu caso, cada objetivo necessita ser matizado. Não é brilhante e histriônico, á maneira do soberbo Pelé. Mas sua eficácia é tão completa quando lança , de ângulo inverossímeis , aqueles disparos potentíssimos a gol, ou quando , através de um passe despojado e preciso como um teorema , põe em movimento uma irresistível operação ofensiva, que seria injusto não chamá-lo espetacular, um jogador que transforma uma partida numa exibição de gênio individual ( ou num "recital", como disse um crítico , excelente pontaria, sobre sua atuação frente aos hungaros.)
O estilo de Maradona rompe com essa divisão, que acreditávamos válida, entre um futebol científico , típico da Europa, e um futebol aristocrático de estirpe
latino-americano. O jogador argentino pratica os dois ao mesmo tempo e nenhum deles em especial. È uma curiosa síntese em que a inteligência e a intuição , o cálculo e a inventiva , se apóiam continuamante. Assim como em sua literatura, a Argentina produziu um estilo de futebol que é a manifestação mais européia do latino-americano.
Se nas próximas partidas Maradona jogar o que jogou contra os húngaros, organizando com a mesma eficácia as ações ofensivas de seu time, disputando a bola com idêntica cobiça, chutando e cabeceando a gol com a mesma fúria e precisão e dando um jeito, inclusive , de recuar e dar uma mão á sua própria defesa , não há dúvida de que, independente da colocação da Argentina no quadro final , ele será o herói deste campeonato (e dos próximos anos).
Os povos necessitam heróis contemporâneos, seres a quem endeusar. Não há país que escape a essa regra. Culta ou inculta, rica ou pobre, capitalista ou socialista , toda sociedade sente essa urgência irracional de entronizar ídolos de carne e osso frente aos quais queimar incensos. Políticos, militares, estrelas de cinema , desportistas cozinheiros,playboys, grandes santos ou ferozes bandidos foram elevados aos altares da popularidade e convertidos pelo culto coletivo naquilo
que os franceses ,com excelente imagem, chamam de monstros sagrados. Pois bem, os jogadores de futebol são as pessoas mais inofensivas a quem
se pode conferirr essa função idolátrica.
Eles são é claro, infinitamente mais inócuos que os políticos ou os guerreiros , em cujas maõs a idolatria das massas pode se converter em um instrumento temível . E o culto do jogador de futebol não tem os miasmas
frívolos que cercam sempre a deificação do artista de cinema ou da dondoca da sociedade. Ele dura o que dura o talento futebolistíco e termina com esse. È efêmero , pois as estrelas do futebol queimam rapidamente no fogo verde dos estádios e os cultores desta religião são implacáveis: nas arquibancadas , nada está mais próximo da ovação do que as vaias.
Ele é também o menos alienante dos cultos , porque admirar um jogador é admirar algo muito parecido á poesia pura ou a uma pintura abstrata. È admirar a forma pela forma, sem nenhum conteúdo racionalmente identificável.
As virtudes futebolísticas destreza , a agilidade, a velocidade,o virtuosismo , a potência - dificilmente podem ser associadas a posturas socialmente perniciosas , a condutas inumanas. Por isso, se é preciso que haja hérois , que viva Maradona!

(Jornal O Globo 21 .06. 82)

Vargas Lhosa

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