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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Menina

"Oh, ela sabia cada vez mais"



Assentar-se, contar até um número e esperar agudamente um acontecimento importante, era seu exercício mais despido de maldade . Havia
outros,menos intensos: gritar "ah" de olhos fechados e,abrindo-os,
esperar que tudo que tudo houvesse desaparecido, colocar a mão molhada na testa e sentir a propagação do sangue frio pelo corpo; imóvel e muda, obrigar a fruteira de cristal brilhante a estilhaçar-se no chão com a força do pensamento; passar sem comer um dia inteiro para preocupar a mãe e ouvir deliciada: "Ana Lúcia,
você me mata!"
Entretanto, esperar que algo importante acontecesse dava-lhe um segundo de vida intenso do qual ela saía sempre um pouco mais velha, e apressava a respiração, como um cansaço ou um beijo de Guilherme em Nilsa. Horas
depois , ou no dia seguinte, quando ouvia as pessoas grandes conversarem graves um fato recente, dizia-se, plena de poder, ela mesma perplexa ante suas possibilidades: "Eu, eu. Fui eu que fiz".
Achava péssimo ir á escola, a professora era horrível. As coisas que mais gostava: pensar sem ninguém perto, brincar de santa, dormir, comer doce. Bom mesmo era fazer nada,
nem pensar, mas isso só ás vezes ela conseguia ,e era impossível gozar o momento, sempre passado. Pois quando o sentia, ele já acabara: elacomeçara a pensar. Gozar aquilo na mesma hora seria morrer? - perturbava-se ela com pensamento, cada vez sabendo mais.
Sim, cada vez sabendo mais. Sempre lhe parecera um mistério ela não ter pai. Ela,
que podia tanta coisa, afinava-se embaraçada de não conseguir dizer "papai" do modo
de Tita ou Nina. Era a única coisa que faziam melhor que ela , dizer
"papai". A diferença talvez só ela percebesse, sutil. Toda pessoa tem
que ter um pai, dizia-se.
Sentia que pai era algo parecido com mãe ou roupas: tem-se sempre. Tita e Nina sabiam que aquela era uma vantagem:
- Quêde seu pai, Ana Lúcia?
- Está viajando - disseram-lhe isso ou ela inventara? Ah, cada vez sabia mais, sempre mais.
Guilherme e Nilsa não se beijavam quando a mãe estava presente . Se ela
chegava eles perdiam o ar ansioso, os gestos rápidos (via tudo da janela do quarto), sua respiração tornava-se sossegada , pareciam dois amigos de mãos dadas.
Beijar devia ser proibido . Ou pecado. (Sabia mais, sempre mais.)
- Ana Lúcia, seu pai ainda está viajando?
- Está.
- Mentirosa! Sua mãe é desquitada.
Sentiu-se impotente ante a palavra desconhecida. Uma coisa nova, que não se podia saber de que lado olhar para possuí-la toda, ou á parte mais bela.Desquitada. Jamais perguntaria a Tita, era uma alegria que não lhe daria. Ficou uns instantes sem saber como sair ilesa da nova armadilha. Tita
corada e brilhante de prazer na sua frente.
- E o que tem isso?
Tita desmontou como um quebra-cabeças, Ana Lúcia balançara o tabuleiro. Jamais teria medo de Tita, ela sempre dependia das coisas, de um gesto, de uma palavra como desquitada ou parto.
Desquitada. Passou dias tentando solucionar sozinha. Seria algo como bonita? Não,não parecia. Flor? Flor parecia . Orquídeas, rosas, sempre-vivas, desquitadas...Parecia. "Mentirosa! Sua mãe é desquitada". Não era flor. Tita dissera como quem diz o quê? O quê? O quê? Sem vvergonha: olhando de frente e esperando um tapa.
Nesses dias amou a mãe com excessiva força, amou-a até sentir lágrimas, defendendo-a
contra a palavra bruta: desquitada , sem vergonha.
Pensava a palavra de leve, com receio de ferir a mãe. Experimentava, baixinho,
torná-la mais suave, molhando-a de lágrimas e amor: desquitadinha, sem-vergonhia.
Mas a palavra agredia, sempre feria.
Sentada no chão, picando retalhinhos de pano com a tesoura ,amava a mãe intensamente,
enquanto ela costurava, rápida, bonita mesmo , com aqueles alfinetes na boca. Chegava
alguém para provar vestidos , a mãe mandava-a sair. Era feio ver
gente grande mudar de roupa - a mãe dizia. Saía contrariada por deixá-la exposta a palavra , em perigo. Abria-se a porta, ela entrava de novo, amando , amando.
Estava cansada: só por isso duvidou de si, subitamente um dia ao tomar leite para dormir : desquitada podia não ser como sem-vergonha !
Pura ,respirando fundo e observando-se, ela seguia pronta para novas descobertas. Deixou que a nova idéia se acalmasse. Em breve adormecia.
No dia seguinte recomeçou. Mais uma vez preocupava-se com a palavra, agora não nova, mas mistério, sombra. Não se arriscavaa dar um palpite,havia o perigo de outro engano.
A professora velha e feia protegia-se atrás da mesa da visão completa das alunas.
Ao terminar a aula perguntava:
- Alguém deseja saber alguma coisa?
Ana Lúcia acendeu-se emocionada. Por que não a professora? Talvez ela fosse boa, talvez dissesse sem raiva o que era desquitada. Levantou-se tímida, insegura. Já de
pé, desistiu: - não pergunto, quero sentar-me, ela é má, eu sei; não pergunto.
_ O que é? - a voz da professora era mansa, mas fria, fria. Não pergunto, dizia-se.
- O que é? - a voz insistia.
As meninas riam, insuportáveis. Helenice e seus dentes enormes impossibilitando tudo . Ana Lúcia sentiu que ia chorar. estar perto da mão era o que mais desejava.
- Sente-se ordenou a professora irritada.
A Máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era,com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando os seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura.
Interrompia ás vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura.
Admirava o jeito decidido da mãe cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A
mãe sabia tanto! Saberia que Tita chamava-a de... como quem diz...(tentava evitar pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil!). A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe, intensamente agora quase com fome depressa antes de morrer, tanto
que não se conteve e
- Mamãe o que é desquitada? - atirou rápida com uma voz sem timbre.
Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo se acabava ou Deus aparecia - sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com uma tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançava desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz,luz,luz.
A mãe reconstruiu as coisas em sua exatidão com voz maravilhosa e um riso:
- Eu precisava mesmo explicar a situação. Mas você é tão pequena!
Olhou a filha com carinho, procurando o jeito mais hábil. Achou que não devia dizer tudo. Sabia como.
- Desquitada é quando o marido vai embora e a mulher fica cuidando dos filhos.
Pronto, libertara-se sentiu Ana Lúcia. Desquitada, desquitada, desquitada ,desquitada - repetia sem medo. Não precisava saber mais. Sentia-se completa e nova. Alegrou-se por não precisar amar com aquela força de antes. Sendo
apenas uma menina podia cansar-se e então o que seria da mãe? Bom, que
desquitada não insultasse. Bom mesmo, deixava-a livre para pensar e não pensar,
coisa tão difícil que...
- Marido é o pai? - ocorreu-lhe de súbito. A mãe sorriu e confirmou.
(Tita sabia dizer 'papai' porque a mãe não era desquitada - ia Ana Lúcia aprendendo,
descobrindo.) Havia muita coisa em que pensar naquela conversa. Por exemplo:o que ela chama de marido é o que eu chamo de pai. Essa é uma diferença
entre mãe e filha.
Ela sabia cada vez mais.

Ivan Ângelo

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