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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os sete povos das Missões(cont)

Os Sete Povos das Missões

Os missionários Jesuítas foram enviados no ano de 1549, pelo Papa Paulo III, para salvar as almas dos índios. É bom dizer que só em 1537 - 35 anos depois da chegada de Cristóvão Colombo -, a Igreja reconheceu que os índios eram possuidores de almas, portanto passaram a ser considerados seres humanos. Almas que deveriam ser salvas, através do batismo e da catequese.
Esses missionários se espalharam por diversas partes do continente. Espanha e Portugal dividiram as terras da América do Sul em duas partes, através do Tratado de Tordesilhas, em 1494. Em 1750 um novo acordo foi feito entre Portugal e Espanha, o chamado Tratado de Madri, que anulava o anterior e concedeu as terras dos Sete Povos do Uruguai para Portugal e a Colônia do Sacramento para a Espanha. Por causa deste tratado houve muita confusão e a morte de muitos índios.
Os Sete Povos do Uruguai estavam localizados numa região muito rica, situada a noroeste do atual Estado do Rio Grande do Sul, onde os missionários Jesuítas fizeram os chamados aldeamentos, que eram verdadeiras cidades para defenderem os índios da escravidão dos brancos e dos ataques dos bandeirantes. Já a Colônia de Sacramento ficava numa região mais pobre, situada a esquerda do Rio da Prata, foi fundada pelos espanhóis, mas invadida pelos portugueses em 1680. Hoje este local é a República Ocidental do Uruguai.
Os missionários, naquela época, eram submetidos às ordens do Papa e dos governos da Espanha e Portugal. Não tinham muita liberdade, apenas deveriam transformar os Povos Indígenas em gente católica. Construíram, para isso, grandes missões, onde havia sempre uma igreja, escola, abrigos, casas, comércio, local para o plantio e para a criação do gado. Os aldeamentos formavam verdadeiras vilas ou cidades administradas por missionários ou pelos administradores enviados de Portugal e Espanha. Ali, os índios guaranis viviam e trabalhavam e eram obrigados a estudar e a rezar conforme determinavam os missionários e os governantes. Para os índios não havia muita escolha, ou aceitavam o que os governos determinavam ou fugiam e se escondiam. Quando fugiam eram caçados e perseguidos. Quando capturados eram presos e obrigados a trabalhar e viver nestes aldeamentos. Quando se negavam a viver conforme as regras e as ordens dos brancos, eram castigados até a morte.
Os Sete Povos das Missões foi uma novidade bem sucedida na condução do trabalho missionário. A missão, denominada de São Miguel, foi criada em 1632 e nela moraram mais de 10 mil índios. Estas cidades (missões) eram pensadas e sonhadas somente para o serviço missionário com os índios. Toda a economia era mantida com o trabalho dos indígenas, supervisionado pelos missionários em toda a região. Essa região era denominada de missioneira, e abrangia a parte sul do território brasileiro, argentino, uruguaio e paraguaio. Os povos que viviam nesta região eram basicamente os Guaranis - a grande maioria, e os Charruas. Muitos outros povos foram sendo expulsos ou dizimados porque não se submetiam aos governos da Espanha e Portugal. Hoje existem ainda alguns grupos descendentes do povo Charrua que buscam o reconhecimento e a recuperação da sua história, ou seja, querem tornar a sua verdadeira história conhecida. Muitas comunidades Guaranis também fugiram e esconderam-se dos perseguidores, enquanto que outros milhares de Guaranis viveram nas missões e fizeram das reduções seu local de morada.
Nas reduções, os Guaranis viviam o cotidiano como se estivessem em uma cidade, submetidos a um governo local coordenado por jesuítas, mas com a participação dos indígenas em todas as instâncias. Nas reduções havia escolas onde aprendiam a ler e a escrever, e onde recebiam um tipo de educação de acordo com a concepção européia. Dedicavam-se à arte, a música e literatura. Na Igreja, rezavam e aprendiam o catecismo católico. Na economia, desenvolviam atividades de marcenaria, de agricultura e de pecuária. Eram exímios criadores de gado. Em torno da economia, da arte e da religião se estruturavam as missões jesuíticas. Na política, observava-se o espírito comunitário, sempre sob o acompanhamento dos missionários. O modelo construído era com bases comunitárias e voltado para a especificidade de um mesmo povo, no caso os Guaranis, e com um profundo vínculo religioso à cultura católica, adaptando-a, de certa forma, ao modo de vida e da cultura dos Guaranis.
Em função do êxito das cidades, ou dos Sete Povos das Missões, os espanhóis e os portugueses, que disputavam a posse de territórios na região missioneira, optaram por não mais guerrear entre si, mas sim destruir um modelo de governo que se estruturava e que poderia ser perigoso para os impérios europeus.
Os governos de Portugal e Espanha iniciaram uma batalha contra os jesuítas e contra os Guaranis. Precisavam destruir o que fora criado e arrancar os índios de suas terras. Os Guaranis, através de seus líderes, dedicaram-se por longos anos às negociações com os governos estrangeiros a fim de evitar a guerra. Os líderes indígenas, quanto mais negociavam, mais sabedoria demonstravam, mais convicções tinham sobre seus direitos e com mais afinco resistiam às imposições da Espanha e de Portugal. Enquanto para os europeus a terra era cobiçada por conta de seu valor econômico e para estabelecer divisas territoriais, para os Guarani a terra sempre teve um valor sagrado. Terra era dom de Deus. Terra era mais que solo, terra era natureza, terra era lugar dos sonhos, de utopias. Terra era lugar de convivência entre todos os seres e com Deus. Terra era vida e mãe de todo o ser.
Nesta concepção residia a diferença de pensamento entre os Guaranis e os europeus e, portanto, um dos motivos para a guerra anunciada e pretendida pelos governos estrangeiros. Sem dialogar com os líderes indígenas e com a traição aos acordos de paz que foram sendo estabelecidos, os exércitos brancos iniciaram as batalhas para a destruição dos Sete Povos das Missões, a destruição dos Guaranis, a devastação da Terra Mãe.
Os Guaranis, desejando a paz, foram obrigados a se preparar para as batalhas. A guerra durou mais de dois anos (1754–1756). Os indígenas, astutos e bem comandados, resistiam e enfrentavam com vantagens os soldados europeus. Eles conheciam os caminhos da terra, das águas, das matas e das estrelas e por isso foram vitoriosos em muitas batalhas. Mas a união dos exércitos da Espanha e de Portugal, por meio do tratado de Madri, as traições aos acordos de paz, as prisões dos líderes indígenas e a perseguição e expulsão dos jesuítas, tornaram a guerra trágica e devastadora para os Guaranis.
Foram mortos os líderes do povo, entre eles Sepé Tiaraju e, na batalha final, em campo aberto, as armas de fogo, os canhões, as bombas, as escopetas e as baionetas trucidaram mais de 1500 guerreiros do Povo Guarani, destruindo as cidades dos Sete Povos.
Os Guaranis que resistiram, espalharam-se pelos territórios entre o que é hoje a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil e fugiram durante séculos em busca de uma terra de paz e tranquilidade.

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