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domingo, 21 de setembro de 2008

Cantiga de esponsais

Machado de Assis

Imagine a leitora que está em 1813 , na Igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical.
Sabem o que é uma missa cantada ; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e sacristães , nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas,que já eram
bonitos nesse tempo nem para as matilhas das senhoras graves , os calções, as cabeleiras,as sanefas,as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra , que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. È bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele . Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. " Quem rege a missa é mestre Romão", equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois :"Entra em cena o ator João Caetano"; - ou então: "O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias". Era o tempero certo, o chamariz delicado e popularr . Mestre Romão rege a festa!
Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspectro, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia á frente da orquestra , então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre ; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro .
Não que a missa fose dele ; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.
Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala ; vai a sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar á mesa do janatr. Tudo isso
indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a Rua da Mãe dos Homens , onde reside, com um preto velho, pai de José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.

- Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha.
- Eh!eh! adeus, sinhá, até logo.

Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar de costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha
o menor vestígio de mulher, velha ou moça , nem passarinhos que cantassem , nem flores, nem cores vivas ou jacundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele...
Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor. Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que não a têm.
As primeiras realizam-se ; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens.
Romão era destas . Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única de tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ela ; uns diziam isto, outros aquilo:doença,
falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: - a cauda da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interogassse o cravo, durante horas; mas tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada.



E entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começando três dias depois de casado, em 1779.
A mulher que tinha então 21 anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita,
nem pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como ele a ela. Três dias
depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma coisa parecida com inspiração.
Ideou então o canto esponsalício , e quis compô-lo ; mas a inspiração não pode sair.
Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola,
abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico,
encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta nada . Algumas notas chegaram a ligar-se ;ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte , dez dias depois , vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu , ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste,por não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.

- Pai José, disse ele ao entrar ,sinto-me hoje adoentado.
- Não; já de manhã não estava bom. Vai a botica...
O boticário mandou alguma coisa, que ele tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão
não se sentia melhor. É preciso dizer que ele padecia do coração: - moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico.

- Para que? disse o mestre, isto passa.
O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto , que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança, apenas soube do incômodo , não quiz outro motivo de palestra ; os que entretinham relações com o mestre foram visita-lo. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo ; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, - outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final.

- Está acabado, pensava ele .

Um dia de manhã, cinco depois da festa,o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras.

Isto não é nada ; é preciso não pensar em músicas...

Em músicas ! Justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamente.Logo
que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo e não concluídas. E
então teve uma idéia singular: - rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer coisa servia , uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto e se conte que um mestre Romão...

O princípio do canto rematavaum certo lá; este lá,que lhe caía bem nno lugar era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo
para a sala do fundo, que dava para o quintal : era-lhe preciso ar. Pela janela
viu na janela dos fundos de outra casa dois casadinhos de oito
dias , debruçados, com os braços por cima dos ombros,e duas maõs presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...
Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá...

- Lá, lá, lá, lá...
Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.
- Lá, dó...lá, mi,...lá, si ,dó , ré...ré...ré...

Impossível! Nenhuma inspiração, não exigia uma peça profundamente original,mas
enfim alguma coisa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos.Para completar a ilusão , deitava os olhos pela janela para o lado dos casadinhos.
Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro ; a diferença e que se miravam agora, em vez de olhar para baixo . Mestre Romão, ofegante da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo ; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração, e as notas seguintes
não soavam.

-Lá...lá...lá...

Desesperado, deixou o cravo pegou do papel escrito e rasgou. Nesse momento,a
moça embebida no olhar do marido, começou a cantalolar á toa ,inconscientemente,
uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza , abanou a cabeça ,e a noite expirou.



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